Mensagem Pastoral de Natal

Mensagem Pastoral de Natal

Enviado por Anônimo em qui, 23/12/2010 - 23:05 tags:

Aos irmãos e irmãs da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo

Certamente eu e você já ouvimos dezenas e dezenas de vezes a história do Natal. Todos nós sabemos a história: uma jovem virgem desposada por um carpinteiro chamado José, foi visitada por um anjo chamado Gabriel enquanto orava em seu quarto. Gabriel trouxe uma notícia impactante: Maria, virgem, seria mãe do Messias prometido por Deus pela palavra dos seus profetas.

Maria quis saber como isso seria possível, uma vez que era virgem! O Anjo então respondeu que o Espírito de Deus a envolveria e que dali em diante ela carregaria no ventre o Menino que seria Emanuel, Deus conosco. Maria disse sim e correu todos os riscos com o seu sim, inclusive o de ser apedrejada até à morte, já que, além de virgem, era solteira.

José reagiu à notícia como qualquer homem ainda hoje reagiria! Ou melhor, ele reagiu melhor que muitos homens de hoje em dia, pois não surrou Maria, não a difamou, mas resolveu deixá-la, abandoná-la em secreto. José, além de justo, era um homem discreto.

Precisou que um anjo, talvez o mesmo Gabriel, fosse falar com José em sonho. Neste encontro no inconsciente, o anjo informou que o bebê que sua noiva esperava era o Filho de Deus, o Messias, o Salvador do povo e que ele não temesse recebê-la por esposa, pois o que nela foi gerado não vinha de outro homem, mas do próprio Deus.

Obrigado pelo poder opressor a sair de sua cidade para passar por um recenseamento cujo objetivo era a certificação de mais impostos recolhidos, José e Maria partiram para a cidade de Davi, a pequena Belém, pois José era da tribo de Benjamim, tal qual o grande e saudoso Rei Davi.

Por conta do grande movimento de gente, não havia nem um só lugar na hospedaria da pequena Belém, até que uma boa alma ofereceu ao casal a estrebaria, o lugar dos animais, para passar a noite. E nesta mesma noite, logo nessa noite de apertos e falta de conforto, no meio da urina e das fezes dos animais que ali se abrigavam do frio da noite, nasceu o Menino Jesus, o Salvador, o Redentor.

Pastores estavam por ali e foram acordados por um coral de anjos que dava glória a Deus pela portentosa noite de silêncio na terra, mas uma festança no céu! Logo eles, vejam só, foram os primeiros olhos, além dos pais do Menino, que o contemplaram.

Outro contador da mesma história, chamado Mateus, escreveu que magos do Oriente, ou seja, astrólogos, gente que lia o céu e as estrelas e desvendavam dessa maneira a vida que corria na terra, viram desde suas casas no Oriente a brilhante e inconfundível estrela que anunciava o nascimento do “Rei dos Judeus”. Não tiveram dúvidas: arrumaram a bagagem, não esqueceram dos presentes para o bebê e pé na estrada. Seguiram a estrela até a tal Palestina e lá foram ter no palácio, achando que o futuro rei estava ali. Estavam certos, afinal, não é nos palácios que nascem os futuros reis?

No tal palácio encontraram com o verdadeiro rei, Herodes, que não gostou nada dessa história do nascimento de um rei que não seu filho. Certamente era um impostor que lhe tomaria o trono. No meio do pensamento, Herodes, que não era 100% judeu, mas Indumeu se lembrou das profecias dos antigos homens de Deus e da promessa feita antanho de que o cetro de Davi jamais se apartaria de Israel. Chamou os religiosos e teólogos, pois estes são aqueles que entendem dessa coisa chamada religião. Estes o informaram que o Messias prometido nasceria na cidade de Davi.

A partir daí, um plano diabólico foi posto em prática, tudo pelo medo de perder o poder e o dinheiro! Anos, muitos anos mais tarde, outro homem de Deus chamado João, um profeta que sonhava como os profetas de antigamente, viu em sonho que o que se desenrolava na terra, a matança de inocentes e a busca sedenta de sangue pelo Menino, ocorria, como num espelho, nas regiões celestiais: uma mulher que estava em dores de parto, acuada, chorosa, com medo, sentia as dores dolorosas do parto, enquanto que um vermelho e grande dragão a tudo assistia, pronto para devorar seu Menino.

O Menino e seus pais, sempre orientados por esses mensageiros de Deus chamados anjos, tiveram que fugir para o Egito e somente quando o feroz e terrível Herodes morreu, puderam voltar em paz para sua casa, que não era em Belém, mas na pequena e desprezada Nazaré da Galiléia, onde o Menino cresceria.

Essa é, em linhas gerais, a história que desde pequenos ouvimos, lemos, e assistimos nos filmes e nos programas de TV sobre o Natal. Não é verdade?

Mas o que de novo podemos tirar dessa história tantas vezes repetida, tantas vezes ensinada, tantas vezes reproduzida, tantas vezes ouvida?

Para mim, que aprendi, não sem muito custo, a ler a Bíblia com outros óculos, bem diferentes daqueles que então usava; óculos que me foram dados pela religião, a história do Natal hoje tem outro sabor, porque me ensina, ainda agora, pelos sinais deixados pelos jornalistas desta fantástica história, coisas novas que antes eu não sabia. Quero dividir com vocês o que aprendi.

O grande Einstein dizia que Deus mora nos detalhes! Não é que é verdade?! Eu achava lindo os detalhes dessa fantástica história e, no velho, mas ainda lindo presépio que minha avó ainda monta na varanda da sua casa lá na roça, o que me chamava atenção era mesmo aqueles dois grupos de pessoas tão diferentes – diferentes na cor da pele, nas roupas e no que traziam nas mãos: os pastores e os magos.

Os pastores com suas roupas, se é que podemos chamar de roupas aqueles farrapos, tendo em suas mãos cajado e instrumentos musicais, com um semblante e uma postura alegre, quase “gay”, sorrindo, felizes, ao ver o Menino deitado na manjedoura.

Do outro lado da cena, homens altos e altivos, pele escura, turbantes, roupas muito ricas, longas capas e, nas mãos, nada de cajado e cítara, mas caixas com ouro e outras coisas que eu, pequeno, não sabia identificar, mas que minha avó me contou que era incenso e mirra.

- Mas o que é mirra, vovó?
- É uma essência perfumada muito cara, que Maria guardou até Jesus crescer e morrer na cruz. Foi esse perfume que passaram no corpo dele quando o sepultaram no Jardim de Arimatéia.

Vovó é muito católica, sabe?

Mais tarde, na escola dominical da igreja batista, a professora enquanto grudava no flanelógrafo as coloridas figuras, perguntou quem sabia quais eram os presentes que os magos levaram ao Menino Jesus e eu, cheio de santo orgulho, respondi sorrindo: ah, eu sei! Minha avó me contou: ouro, incenso e mirra!

A tia sorriu e me deu parabéns e começou a nos contar uma história que na época eu acreditei, mas que hoje sei que é bobagem: que os presentes simbolizavam o que Jesus é: rei, profeta, sacerdote! Ah, as doutrinas!

Então eu cresci admirando demais as figuras exóticas dos pastores e dos magos, mas ninguém falava muito neles, nunca tinha ouvido meu primo, que era meu pastor ou meu avó que também era pastor, explicar lá no púlpito o que essas figuras faziam ali. Portanto, para mim, embora muito intrigante, eles eram o que ainda é para a maioria: figurantes do presépio de Natal; muitos diriam: estão ali para preencherem a cena.

Foi bem mais tarde, nos meus vinte e poucos anos, que vim a descobrir algo que me impactou profundamente! Nenhum professor no seminário me explicou, na verdade, eu acho que para eles essas figuras também são figurantes, ou, pior ainda, hoje eu sei que eles nada falam dos magos e dos pastores porque destruiria a teologia deles e de muitas agremiações “cristãs”.

Foi nos livros que eu descobri sobre os pastores e os magos. Eles me contaram que tanto uns quanto outros eram pessoas rejeitadas e excluídas pela lei e pela religião do povo no meio do qual Jesus nasceu!

Os magos por não terem nascido de ventre judeu, não eram judeus, não chamavam Deus de “Deus de Abraão, Isaque e Jacó”, não oravam a “Shemá” várias vezes ao dia, nem tinham ofertado sacrifícios de animais, nem qualquer outro tipo de sacrifício no Templo do Deus judeu em Jerusalém, porque na verdade eles nem podiam pisar no pátio dos judeus, só podiam ficar do lado de fora do portão! Caso contrário, morreriam!

Os magos eram gente de outra geografia, de outra cultura, de outra religião! Chamavam Deus por outro Nome, na verdade adoravam o “Exército do Céu”. Todavia, ao contrário dos que tudo sabiam de religião e bíblia, foram os que souberam ler os sinais impressos no céu, deixados lá propositalmente pelo Senhor da criação, e assim encontraram o Menino que também era Salvador deles.

Veja você! Os teólogos e os entendidos de religião, os estudantes da Bíblia chamados escribas, não correram para Belém com presentes ao Menino Jesus. Ficaram no palácio de Herodes, ajudando-o no diabólico plano de matar o Menino!

Os pastores também eram pessoas rejeitadas e excluídas pelos homens de bem e religiosos. Na verdade eles eram considerados a escória daquela sociedade. Nada que eles falavam podia ser escrito ou confiado. A palavra deles era tão, mas tão desvalorizada, que eles não podiam ser testemunhas num tribunal. Eram considerados mentirosos em potencial, além de ladrões de ovelhas alheias. Eram pobres, pobres, pobres, cuidavam, muitas vezes, daquilo que não era seu. Eram errantes e esse povo que não tem lugar que esquente, não é povo confiável. Os pastores não gostavam de religião. Não iam ao Templo. Não cultuavam, nem iam à escola bíblica da época. Eram, olha que engraçado, ovelhas que não tinham pastor!

Desde que eu descobri a verdadeira história dessa gente esquisita que todo ano estava lá no presépio que a minha avó ainda monta na varanda da sua casa, jamais fui a mesma pessoa. Porque os pastores e os magos era eu e todos os meus amigos e amigas que são excluídos, rejeitados e marginalizados pelos donos da religião.

Eu entendi perfeitamente! Era impossível não me identificar com aquela gente esquisita, meio “gay”; aquela gente rejeitada, marginalizada, excluída. Eu entendi que foi pra essa gente que Deus se revelou, não respeitando as opiniões que os outros seres humanos certinhos, religiosos, entendidos de Bíblia tinham sobre elas. A despeito deles, Deus, que não respeita opinião de gente que não sabe amar o diferente, escolheu aquela gente esquisita, meio “gay”, para contemplar o Verbo que se fez gente e entre nós habitou. E foram os seus olhos marginalizados, rejeitados e excluídos os primeiros a contemplar o Menino.

Sim, Deus mora nos detalhes, Sr. Einstein! Por conta disso, meu Natal já não é mais o mesmo, nem minha teologia, nem minhas doutrinas, nem o povo que vejo desde o púlpito que o Senhor me deu para nele falar da Boa Notícia.

Abandonei as velhas e carcomidas idéias; me despi dos velhos e carcomidos preconceitos; abri meu coração e meus braços para aqueles que não têm a mesma religião que eu e nem conhecem Deus pelo nome que eu O chamo; sai do Templo que só me aceitava se eu me conformasse com as regras criadas pelos donos da religião; e hoje, mesmo não tendo ouro, incenso e mirra, visito o presépio todos os anos, oferecendo ao Menino, junto com uma gente esquisita e gay, junto com gente de outras religiões, o nosso coração, tudo o que temos e tudo o que somos.

Hoje, meu Natal é mais feliz! Eu espero que o seu agora seja tão feliz como o meu, ainda mais agora, que você sabe a verdade da mensagem do Natal, que mora nos seus detalhes.

Feliz Natal, povo eleito!

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